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A função da memória de curto prazo é "filtrar" as informações importantes e consolidá-las em memória de longo prazo quando assim for conveniente. Do contrário, não haveria seleção e prioridade de conteúdo. "Uma biblioteca que armazena qualquer coisa em "papel" (livros, revistas, jornais, folhas, panfletos, anúncios, cartões de visita, envelopes, etc.) não será tão eficiente como outra que armazena apenas "livros"", exemplifica o neurologista.

Muitas pessoas se queixam de se recordarem de eventos ruins e traumáticos, mas não se recordarem de momentos bons. Por quê? Dr. André explica que guardar algo (uma informação qualquer) requer que uma memória de curto prazo seja transformada em memória de longo prazo e, em seguida, requer que essa mesma memória seja resgatada (lembrada) quando assim desejamos. "Neste sentido, aquelas memórias que estão vinculadas a um conteúdo emocional geralmente são mais fáceis de resgatar porque o cérebro as reconhece como "relevantes" em comparação a outras memórias ditas "corriqueiras". Em relação a memórias com conteúdo negativo ou positivo, o cérebro geralmente prioriza as primeiras porque, do ponto de vista da evolução, o "risco" é mais importante que o "prazer" e o risco tem uma correlação direta com aprendizado", explica Dr. André.

As emoções são veiculadas por estruturas ou regiões cerebrais especiais como a amígdala, giro do cíngulo e estriado ventral, enquanto a memória de curto prazo é veiculada pelos hipocampos, no córtex temporal. Por outro lado, a memória de longo prazo depende de regiões bastante desenvolvidas no córtex pré-frontal. Interessante observar que todas essas regiões têm conexões entre si, de forma que existe uma profunda interação entre as emoções e as memórias de curto e longo prazo.

A memória também pode pregar peças, como omitir ou distorcer os fatos. De acordo com o neurologista, isso acontece porque a memória seletiva, quando não há um componente factício, ou seja, a pessoa está voluntariamente "esquecendo" algo, sugere um mecanismo "protetor" cerebral. "Por exemplo, após um trauma físico no crânio é muito comum a pessoa se esquecer completamente do que ocorreu nos instantes após o acidente (amnésia pós-traumática)", exemplifica.

É importante frisar que o sono é uma etapa fundamental para consolidação da memória de curto prazo em memória de longo prazo. Na realidade, uma simples soneca ou cochilo já é importante para melhorar o desempenho das funções cognitivas. "O fato é que a melhor ferramenta para treinar nossa memória é descobrir estratégias que facilitem sua consolidação, como maximizar a atenção, dormir melhor, estabelecer ou não uma rotina, mas principalmente colocar o cérebro à prova, buscando-se aprender coisas novas constantemente. Finalmente, atividade física, em geral, é outra maneira de melhorar a memória e outras funções cognitivas em geral", finaliza ele.

 

 

Dr. André Felicio, neurologista, doutor em ciências pela UNIFESP, membro da Academia Brasileira de Neurologia e clinical fellow da University of British Columbia no Canadá

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